SONHOS, TERRAS E MEMÓRIAS: OS RITUAIS DA POESIA
Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco – UFRJ
APRESENTANDO OS POETAS...
Sonhos, memórias, terras e gentes: os rituais da poesia em Moçambique e no Brasil. Estudo comparativo acerca da presença dos sonhos e da memória na poesia de Carlos Drummond de Andrade e na de Eduardo White. Este, poeta moçambicano contemporâneo, vivo, ainda não tendo completado 40 anos; aquele, reconhecido poeta brasileiro, cuja longa vida ultrapassou os 80 anos.
Apesar das diferenças etárias, geográficas, sociais, políticas e muitas outras, une estes dois poetas a obsessão pela procura existencial dos sentidos do humano.
Drummond, talvez, não tenha chegado a ler poemas do jovem White. Este, entretanto, conhece a poesia drummondiana, tendo declarado, em entrevista a Michel Laban:
Carlos Drummond de Andrade é o poeta que mais me toca porque consegue trabalhar a violência da realidade com toda a beleza e a seriedade com que os olhos de um poeta podem ver essa realidade. Estou-me lembrando do poema do distribuidor de leite, do menino que morre com um tiro, onde o sangue se cruza com o leite derramado. Isso é o Brasil _ mas é toda essa violência do Brasil dita com poesia.E mais me toca profundamente porque é também o que eu procurei no País de mim: foi falar do amor, mas não do amor desajustado da realidade _ quer dizer, o amor que a gente foi capaz de fazer, fomos capazes de dar e de receber, mesmo na realidade violenta que foi a guerra no nosso país. Aí eu aprendi muito com o Mestre Drummond de Andrade. De facto. [1]
A temática do amor, o constante labor em relação ao verbo poético, a busca permanente da beleza estética não são, no entanto, as únicas afinidades entre esses dois poetas. Ambos operam também com uma poiesis de sonhos e “relembranças”, procurando, no passado, imagens antigas, essenciais à recomposição da fraturada identidade.
Sonho e memória, para esses poetas, encontram-se em íntima correlação com a história, mas uma história de rupturas e descontinuidades, afetividades e sentimentos. Como sonhadores à deriva, reinventam a poesia da realidade. Penetram nos desvãos das palavras, recriando a linguagem em combinações inusitadas, devolvendo ao humano a capacidade de voar e imaginar.
O ITINERÁRIO DOS AVESSOS: A PROCURA DAS RAÍZES...
Drummond, em seus poemas de Boitempo, envereda pelos meandros das reminiscências. Benjaminianamente, o eu-lírico dos poemas repensa os cacos de sua história pessoal, os fantasmas familiares. Regressa, em sonhos e lembranças, à fazenda paterna em Itabira, cidade de Minas Gerais onde nasceu, encontrando aí várias das explicações para sua atual dissonância. Cada objeto, cada recanto emerge do baú das recordações e a história é redesenhada: tanto a pessoal, como a coletiva. O Brasil patriarcal ressurge dessa incursão à casa de Itabira. A opressão do pai em relação aos empregados é denunciada e a ela é associada a história remota da escravidão. “A mancha de sangue tatuada no degrau”. (Boitempo, p. 48) traz a memória da tortura dos negros, das muitas injustiças praticadas.
No presente lírico, o eu-poético adulto tenta resgatar do outrora a imagem do menino sensível incompreendido pelos familiares. Por intermédio do jogo lúdico da linguagem e do lúcido esquadrinhar do passado, procura recuperar a história pretérita, reconstruindo sua genealogia. Investiga, então, os significados de seus nomes, pronunciando-os magicamente, liberando o “abafado canto das origens”. (Boitempo, p. 61)
Ao apreender a história do Menino-Antigo que ele próprio fora, tece correlações entre a sua infância reprimida e o autoritarismo que sempre marcou a história do Brasil. A mineração, a relação senhor x escravo, o Império, a República são reavaliados, sendo criticados os mecanismos repressivos que impediram a livre construção de uma identidade nacional.
Sob “os cacos de louça quebrada há muito tempo”(Boitempo, p. 144), o sujeito poético encontra o itinerário dos avessos, o subterrâneo dos sonhos, os fantasmas pretéritos. Boitempo transforma-se na metáfora do ruminar da memória, do adentrar nas malhas do tempo, ao encalço das raízes:
De cacos, de buracos
de hiatos e de vácuos
de elipses, psius
faz-se, desfaz-se, faz-se
uma incorpórea face,
resumo do existido.[2]
Na poesia de Eduardo White, está presente também a preocupação com as origens. Há nessa procura o desejo de reencontrar a própria face e a do país. O sujeito lírico, em viagem interior, almeja reescrever liricamente a sua história e a de Moçambique. Uma história escrita por um amor plural: pela amada, pela terra, pela própria poesia, e que visa a apagar as marcas dos longos anos de guerra vividos. À procura de Eros, elege como ponto de partida a Ilha de Moçambique (Muipíti), lugar matricial, onde, antes de Vasco da Gama lá ter aportado em 1498, os árabes também haviam estado desde o século VII, tendo levado do continente para a ilha negros de etnia macua, cujas tradições e língua também ficaram inscritas no imaginário insular. Sob a sugestão erotizante do Índico, a voz lírica evoca a insularidade primeira, captando as múltiplas raízes culturais presentes no tecido social moçambicano, cuja identidade, ao longo dos séculos, se fez mestiça:
Sou ao Norte a minha Ilha, os sinais e as sedas que ali se trocaram e nessa beleza busco-te e para mim algum percurso, alguma linguagem submarina e pulsional, busco-te por entre negras enroladas em suas capulanas arrepiadas, altas, magras, frágeis e belas como as missangas e vejo-te pelos seus absurdos olhos azuis. Que viagens eu viajo, meu amor, para tocar-te esses búzios, esses peixes vulneráveis que são as tuas mãos e também como me sonho de turbantes e filigranas e uma navalha que arredondada já não mata, e minhas oferendas de Java ouros e frutos incensos e volúpia.[3]
A PROCURA DO AMOR, DA POESIA E DO HUMANO...
O vôo onírico pelas asas da linguagem leva a poética de Eduardo White a indagações de ordem existencial, filosófica e metapoética. A viagem se tece por uma cartografia imaginária que percorre os mapas da poesia:
Minha flor obscura e inicial, eu movo por ti as palavras para dentro do poema, as imagens que desenham as minhas mãos enevoadas e elas são dentro uma rara delicadeza, uma safira pura, são o sangue, as tripas do poema, matéria profunda, vulcânica, natural. (...) Harpas decifráveis, bússolas, viajam o mapa da poesia (...)[4]
Erotismo visceral, ternura e musicalidade são os materiais de amor com os quais o poeta tece sua poesia, que reflete também sobre a urgência de o povo moçambicano recuperar a dignidade de uma vida mais humana.
Em errância pelo Índico, a voz poética tenta redescobrir as “raízes da água” [5] que poderão, com o sal e a espuma do oceano, purificar a história de sangue e violência do país, fazendo com que os homens reencontrem “as raízes do afecto”[6] e o mistério da própria vida.
Após o trajeto pelas águas marítimas de Amar sobre o Índico, o lirismo de Eduardo White adota, nos livros seguintes, o caminho dos sonhos, alçando vôo através das asas da poesia. A engenharia de ser ave engendra os poemas que se elevam em busca do belo e da plenitude estética.
Voar é não deixar morrer a música, a beleza, o mundo e é também fazer por escrever tudo isso. Nada pode ser mais deslumbrante que esta relação com a vida e por essa razão me obstinam as aves e me esforço por querer sê-las.[7]
O poeta tem consciência de que“as imagens fundamentais, aquelas em que se engaja a imaginação da vida, devem ligar-se às matérias elementares e aos movimentos fundamentais. Subir ou descer _ o ar e a terra _ estarão sempre associados aos valores vitais, à expressão da vida, à própria vida.”[8]
Leveza e liberdade é ao que visa o poeta, procurando, com a brandura de sua linguagem aérea, amenizar as lembranças da sua terra, cheia de “sonhos terríveis e muito sangue a escorrer”[9]. Essa leveza, entretanto, não implica fuga da realidade. É uma acuidade que representa uma outra maneira de mirar a realidade. É uma força ascencional que faz os homens não se entregarem à tristeza, embora tenham desta tenham consciência e lutem por extingui-la. Do mesmo modo que Ítalo Calvino, em Seis Propostas para o Próximo Milênio, conceitua a leveza, esta “está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago ou aleatório. Paul Valéry foi quem disse: É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”[10]. Em Eduardo White, é o ser ave que representa a profunda engenharia do poema. O sonho em sua poética está relacionado ao mundo, à beleza estética, ao mistério da própria poesia; não é imprecisão, nem se apresenta como não evasão. Ao contrário: age como força impulsionadora da própria consciência de estar vivo:
A poesia do invisível, a poesia das infinitas potencialidades imprevisíveis, assim como a poesia do nada, nascem de um poeta que não nutre qualquer dúvida quanto o caráter físico do mundo. [11]
Ar, água, fogo e terra são elementos físicos formadores do cosmos. São em White agentes poéticos de uma lírica que persegue os sentidos cósmicos da existência e se indaga filosoficamente sobre a Vida, a Morte, o Amor e a Poesia.
Forjada pelo Amor, a poiesis de Eduardo White se faz “desafio à tristeza”, devolvendo ao poeta a emoção de saber-se vivo e humano:
Um tiro certeiro na cabeça da tristeza é tudo quanto basta para a emoção desse desafio devolver-me à realidade de saber-me homem, mesmissimamente igual a tantos outros: pequeno, humilde e sem glória. Homem só. Mais nada.[12]
Essa preocupação com o humano também é presente na poesia de Carlos Drummond de Andrade. No livro As Impurezas do Branco, o poetafocaliza a paisagem da incomunicação no contexto da mídia contemporânea. Sob os destroços das palavras e do ritmo agressivo das propagandas, a voz lírica, em meio às notícias sobre as viagens espaciais que, nos finais dos anos 60, dominaram os noticiários dos jornais e da televisão do mundo todo, percebe, entretanto, a grande solidão moderna e alerta para a necessidade de o ser humano ainda ter de se conhecer profundamente:
Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
( estará ele equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
de seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.[13]
No livro A Paixão Medida, Drummond canta o Amor e a Poesia, ambos fonte de erotismo e vida. A voz lírica toma consciência de que a única forma possível de preencher o vazio da linguagem e do próprio homem é através das paixões e dos sentimentos. Logo no primeiro poema desse livro, o sujeito poético descobre que a natureza são duas: a rotineira e a profunda. No segundo poema, declara que é preciso encontrar essa existência profunda sob a face “enganadora da suposta existência” (A Paixão Medida, p. 518), que “a melodia interna é fugaz, pois a canção absoluta não se escreve” (A Paixão Medida, p. 519). Tem consciência de que “é perene a batalha entre o ser inventado e o inventor” (A Paixão Medida, p. 518). Essa também é a matriz dos seus livros Corpo e Amar se Aprende Amando, onde alerta: “O problema não é inventar. É ser inventado / hora após hora e nunca ficar pronta / nossa edição convincente” ( Corpo, p. 100 ).
Senhor do arco e da lira, Drummond faz da poesia “paixão medida”, construção que reconhece o Amor como magma da existência.
CONCLUINDO...
Os dois poetas fazem dos sonhos e da memória itinerário de Eros, comprovando com o tecido de seus poemas o que diz Mia Couto sobre a poesia:. “Sonhar é uma imitação do vôo. Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários _ a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo.”14
O corpo erótico das palavras e imagens dos poemas se transforma em tatuagem inscrita na pele metafórica da linguagem. Desejo e musicalidade se fazem veículo de uma poiesis aérea que busca, no fluir do tempo e da vida, alcançar o prazer absoluto de uma cópula imemorial com as origens, para aí descobrir o Amor pleno e a Beleza estética, desfrutando, assim, a consciência fugaz do misterioso absurdo do próprio existir humano.
Referências Bibliográficas:
ANDRADE, Carlos Drummond de. As Impurezas do branco. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1974.
____________________________. Boitempo I, II, III. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987.
____________________________. A Paixão medida. In: Carlos Drummond de Andrade: nova reunião. Rio de Janeiro: INL; Fundação Pró-Memória, 1983.
_____________________________. Corpo. 10. ed..Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987.
_____________________________. Amar se aprende amando. 7. ed.. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987.
CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Ed. Companhia das Letras,1993.
WHITE, Eduardo. Amar sobre o Índico. Maputo: AEMO, 1984.
______________. País de mim.. Maputo: AEMO, 1989.
______________. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Ed. Caminho, 1992.
______________. Os Materiais do amor seguido de O Desafio à tristeza. Lisboa: Ed. Caminho, 1996.
[1] LABAN, Michel. Moçambique: Encontro com escritores. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1998. v. III. p. 1203.
[2] ANDRADE, Carlos Drummond. Boitempo I. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987. p. 10.
3 WHITE, Eduardo. Os Materiais do amor seguido de O Desafio à tristeza. Lisboa: Ed. Caminho, 1996. p.24.
[4] WHITE, Eduardo. Os Materiais do amor seguido de O Desafio à tristeza. Lisboa: Ed. Caminho, 1996. pp. 28-29.
[5] WHITE, Eduardo. Amar sobre o Índico. Maputo: AEMO, 1984. p. 56.
[6] idem, ibidem. p. 76.
[7] WHITE, Eduardo. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Ed. Caminho, 1992. p. 29.
[8] BACHELARD, Gasto. O Ar e os sonhos. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1990. p. 270.
[9] WHITE, Eduardo. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Ed. Caminho, 1992. p. 29.
[10] CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Ed. Companhia das Letras,1993. p. 28.
[11] idem, ibidem, p. 21.
[12] WHITE, Eduardo. Os Materiais do amor seguido de O Desafio à tristeza. Lisboa: Ed. Caminho, 1996. pp. 80-81.
[13] ANDRADE, Carlos Drummond. As Impurezas do branco. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1974.
p. 21-22.
14 COUTO, Mia. Prefácio. In: WHITE, Eduardo. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Ed. Caminho, 1992. p. 10.